SOBRE OS SAQUES DA REGIÃO METROPOLITANA DE RECIFE

142837Devido à greve dos polícias estouraram saques em várias regiões da região metropolitana do Recife. Esse fenômeno foi coberto por várias emissoras de TV, a maioria delas mostravam os fatos de forma sensacionalista, com o intuito de jogar a população contra a greve e de criminalizar os saqueadores. Mas é preciso fazer uma análise crítica do fato. Não podemos taxar o fenômeno como um mero ato de criminalidade ou como um reflexo da natureza humana. Os saques foram de natureza complexa e merecem um pouco mais de atenção.
Muitos aproveitaram para dizer que o fato de não haver polícia – ou seja, Estado – levou as pessoas a mostrar a sua natureza humana. Com isso, querem fortalecer a ideia de que o homem precisa de uma força que o reprima já que, por natureza tendem a serem egoísta e gananciosos. Outros afirmaram que os pobres não têm “bons costumes”, que é preciso de força para controlar os pobres. Mas isso não é uma questão de natureza, nem de cultura. É uma questão de classe. O Estado é um instrumento das classes dominantes para manter a sua ordem. Na falta de Estado as classes entram em conflito. O fenômeno dos saques durou pouco tempo, mas foi o suficiente para mostrar que sem uma polícia a sociedade atual seria insustentável. Isso não quer dizer que com o fim da polícia a sociedade seria melhor, na verdade, ela entraria numa barbárie que seria boa apenas para uns poucos grupos de poder econômico que tendem a organizar um estado-maior próprio para defender sua propriedade, mas para a maioria da população existiram um caos. O lupemproletariado faria roubos aos trabalhadores.
Uma situação semelhante aconteceu na Inglaterra, onde jovens saquearam lojas roubando roupas de grife e aparelhos eletrônicos. O sociólogo Bauman afirmou que era uma revolta dos excluídos do consumo, que as pessoas são dominadas pelo ideal de consumismo. De fato, eram jovens que não eram pobres e roubavam coisas supérfluas como roupas de grife. Nesse caso, penso que o sociólogo talvez esteja correto, mas esse não é coso do Recife, como afirmaram alguns intelectuais.
imagesAqui os saques ocorreram em locais onde a população tem carências reais e não subjetivas como na Inglaterra. Uma coisa é roubar por uma roupa que promova status, outra coisa é rouba artigos de necessidade. Os locais onde mais ocorreram o evento foi a cidade de Abreu e Lima e em vários comunidades periféricas. Vimos nos telejornais e nas redes sociais pessoas levando tv´s LCD, micro-ondas, computadores, etc. Vimos também senhoras levando cesta básicas e até crianças roubando alimentos. Nesses locais o movimento tomou caráter de massas, não foram marginais (apenas) que roubaram mais famílias inteiras. Como explicar que pessoas das classes trabalhadoras realizassem tais atos?
Para responder a essa pergunta é preciso ter em mente que as pessoas não agem apenas pela sua moral, mas também pelas suas condições matérias. Vivemos numa situação em que as pessoas são privadas dos recursos básicos. O salário do trabalhador não garante a satisfação das necessidades básicas. Claro, que, como na Inglaterra, o povo é atingido por propagandas que incentivam o consumismo. Muitos objetos são comprando não por conforto ou necessidade, mas porque garantem status. No entanto, aqui os roubos se deram em massa com objetos necessários. A questão é que muitas pessoas não conseguem enxergar que hoje, um micro-ondas, uma TV LCD, e um computador não são mais artigos de luxo. De fato, nossas necessidades se modificam ao se modificarem as forças produtivas. Esses roubos não representaram status, realmente todo mundo precisa de uma TV e um computador. Ora, nossa realidade mudou, não conseguimos ter uma vida social plena se não pudermos ter esses objetos. Por esse motivo os saques só mostraram que a população ainda carece de muitos artigos básicos. Ouvi muita gente falar que viu vizinho que tem celular de marca boa sair para saquear. Ora, é simplista afirmar que o fato de uma pessoa possuir um bom celular tem boas condições. Devido ao ideal de consumo, muitas pessoas que pertencem as camadas mais pobres da população, fazem dívidas para obter esses artigos supérfluos, mas a sua realidade pode ser bastante difícil. Mas de fato, houve muitos oportunistas que tem tudo em seus lares e saíram para pegar mais, mas isso não muda o caráter do evento. Ainda ouvi gente dizer que as pessoas mais educadas não saíram para saquear, respondi que as classes mais abastadas roubariam do mesmo jeito se tivessem oportunidade, mas eles não possuem condições de ser influenciados por um movimentos massivo. Na verdade, a classe dominante, ainda teriam alguma dificuldade em roubar devido à necessidade de mostrar status, mas se pudessem fazer escondido fariam. Mas seus motivos estão longe de ser iguais dos motivos dos mais pobres.
Mas além de existir esse fator material que levou trabalhadores a roubar, há também motivos que citei no parágrafo anterior: o movimento de massas. É claro que esses eventos não se iniciaram com os trabalhadores, mas com pessoas da marginalidade. Os primeiros saques se deram em depósitos de cerveja e consórcio de motos, é obvio que não foi de caráter de necessidade real. O lupemproletariado deu início sem se preocupar com questões morais, simplesmente pegavam o que queria para vender. Outras pessoas acabaram vendo isso como uma oportunidade, e logo os trabalhadores foram tomados pelo movimento. Em outras palavras existem vários interesses nesse movimento, uns da marginalidade que roubava por luxo e ostentação e outra de populares pobres que levavam cestas básicas na cabeça.
Isso só mostra que o capitalismo é um regime insustentável, tanta produção, tantas riquezas, mas tão poucos consumidores. Esse é o caráter da propriedade privada. Uns tem, outros não. Realmente é revoltante ser entupido de imagens de coisas que não podemos consumir. É indignante ver pessoas que não trabalham quase nada ter coisas que os pobres só podem sonhar em tê-las. Porém não com saques que iremos mudar essa realidade, na verdade, esses movimentos podem mesmo representar um retrocesso histórico. A população precisa estar organizada para transformar a realidade. Esses objetos precisam ser bem divididos entre a população e só uma organização partidária ao lado da classe trabalhadora pode fazer isso. Se as pessoas roubam e isso é visto como algo bom por ser uma ataque ao capitalismo, como seria se as pessoas roubasses mercados de estados socialistas? Ora, no socialismo também existem dificuldade, e muitas vezes a produção não dá pra todos. Imagine uma crise de produção em aparelhos de eletrodomésticos. Existem lojas com alguns aparelhos mas não dá pra todos. Os estado vai ter que segurar os produtos até a produção melhoras. E se um grupo de um cidade onde são produzidos os aparelhos fizessem um saque. As demais cidades seriam prejudicadas. Esse tipo de ação é danosa para o estado operário. É um erro achar que depois de uma revolução não existiram esses tipos de problema. O incentivo a tais ações é equivocado. O saque tem que ser organizado e em direção aos meios de produção. Com eles nas mãos dos trabalhadores podemos ter uma vida mais digna. A revolta da população tem que ser organizada para a construção do Estado Operário Socialista.

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