E QUANDO A POLÍCIA FAZ GREVE, DEVEMOS APOIAR?

A REALIDADE É DINÂMICA, NÃO ESTÁ DADO QUE A POLÍCIA TEM QUE REPRIMIR, HOUVE MOMENTOS NA HISTÓRIA QUE ELA SERVIU AOS MANIFESTANTE, PRECISAMOS GANHAR O SEU APOIO, OU PELO MENOS ENFRAQUECER SUA AVERSÃO AO POVO

greve pm

Essa sem dúvida é uma questão que toma muito a cabeça de militantes. “Ora, fomo reprimidos por eles nas nossas manifestações, como vão dar apoiá-los?”. Para o militante de esquerda é preciso ter entendimento além do sentimento para poder atuar de forma condizente com a realidade. Se nos deixarmos levar pelo sentimento de aversão aos policias não conseguiremos organizar as transformações sociais de forma científica.

Os militares são um segmento da sociedade com suas peculiaridades, assim como qualquer outro. Ele representa o Estado de fato, ou seja, o estado-maior das classes dominantes, a força repressora. Esse mesmo Estado vai ser dirigido pela classe mais organizada da época, ou seja, a classe dominante. Assim, quando os operários forem classe dominante ele se tornará um instrumento da classe. Nesse sentido devemos entender que na conjuntura atual, é realmente difícil que os militares apoiem manifestações populares, pois o seu papel é estabelecer a ordem da classe que estiver no poder. Como julgar, então, os militares de suas ações se eles são subordinados? É preciso deixar claro aqui que militar são as forças armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) e os policiais militares. Esses homens são preparados para defender a ordem estabelecida com a força. As demais polícias não tem o preparo ideológico de defesa do Estado, não são treinados como força repressora.

Os militares tem interesses que estão de acordo com os interesses da população, mas também tem interesses que vão de encontro aos do povo. Os militares sempre foram separados do povo justamente porque seu objetivo é controla-lo. Os exércitos eram organizados com os filhos das classes dominantes, só em tempos de guerras é que se fazia recrutamentos forçados com escravos, servos e pobres. No Brasil isso foi bem claro, na guerra do Paraguai os escravos foram em troca de liberdade, e negros libertos foram capturados. Se exército fosse formado com os filhos do povo, seria difícil reprimi-los. Mas essa questão vai além de um caráter de origem de classe, ela tem um viés ideológico, os militares eram preparados psicologicamente para ter aversão ao povo. Bem, isso é o exército, a polícia por outro lado começou a ser organizada quando a luta interna entre as classe tomava força, assim houve uma separação entre os que defendem o Estado do ataques externos e os que o defendem internamente. Assim surge a polícia. Em Roma houve essa separação, porque os escravos começaram a se rebelar contra os patrícios. No Brasil a polícia foi criada no século XIX, na verdade era seu embrião, uma extensão do exército com o nome de guarda nacional. Já no século XX surge a polícia propriamente dita, mas ela fazia uso de armas iguais a do exército, o que era um perigo, pois quando eles se subordinavam ficava difícil de controlar. Só depois teve essa divisão como a atual, sendo que agora a polícia faz parte do quadro de reservas do exército.

Na Idade média os exércitos eram pequenos, sendo menores que os formados pelos senhores feudais. Com a necessidade de estender as fronteiras e o fim dos perigos da invasões mulçumanas, começam a serem organizados os exércitos nacionais permanentes. Aqui, com o intuito de forma um espírito nacional para combater as potencias que surgiam, eram recrutados filhos da plebe, mas nunca como oficiais. Dessa forma se constitui as forças militares que existem hoje. Foças externas e internas, e oficiais e soldados rasos. Bom, agora sabemos que dentre os militares existem dois segmentos que entram em choque. Os oficiais filhos da classe dominante e os soldados rasos filhos da plebe. Como fazer para que os filhos da plebe reprimam a plebe? É aí que se desenvolve a consciência militar dos soldados, não só com treinamentos e ideologização, mas com vantagens materiais. Os militares passam a ter privilégios diferenciados da população. Com isso consegue-se separa os soldados do povo.

Bom, no Brasil não dá pra afirmar que os oficiais são filhos aristocracia, pois hoje existe concurso. Mas muitos que estão lá já vem de famílias militares há várias gerações. Mesmo assim, o concurso, apesar de ser mais justo, continua colocando filhos dos grupos abastados que não se identificam com o povo.

Como eu já disse os soldados rasos, filho do povo, são separados deste através de privilégios e militarização. Mas eles tem contradições com os seus superiores. Além disso, eles tem problemas trabalhistas como qualquer trabalhador. É preciso entender que o papel de reprimir as classes dominadas não constitui sua função de fato, sua principal função é proteger o povo, mas essa função é desviada para os interesses encobertos de classe. Nessa atividade, eles correm riscos pela segurança da população. Por isso sofrem com problemas de EPI, com os instrumentos de trabalho (armas) etc. Além disso sofrem assédio moral e vários outros problemas por parte de seus superiores. Por esse motivo, os soldados se rebelaram em vários momentos da história, Encouraçado Potekin, Revolta da Chibata, e outras. Esses homens são impedidos de se organizar em sindicatos justamente por que não podem tomar consciência de classe. Por outro lado os oficiais se organizam em clubes, que são sindicatos disfarçados. Lá eles conversam sobre Golpes, e política. Por outro lado os soldados rasos tem organizado associações que acabam servindo como sindicatos, mas nas fileiras das associações ingressam oficiais.

Nesse sentido é notável que as reinvindicações dos policias podem ser justas, nem sempre são, mas pode ocorrer de serem. Infelizmente as melhoras das condições dos policiais são as melhoras das condições da repressão, mas esse é o lado material, precisamos enxergar o lado ideológico. Os polícias dificilmente fazem suas reivindicações pedindo apoio do povo. Para eles pouco importa, na verdade, jogar o povo contra a greve pode ser até melhor já que demonstra caos e mancha a imagem do governo. Se os policias parassem e povo apoiasse então não existe conflitos e a sociedade está tranquila. Para a polícia é melhor que o povo tenha medo da greve. Eles são uma categoria que pode contar com o não-apoio-popular, pois quem vai reprimi-los. Se uma categoria não tem apoio os polícias podem reprimir que não dá em nada, mas se tem eles tem dificuldade de agir. Com eles isso não existe, eles possuem o oligopólio das armas, ninguém pode reprimi-los. Os oficiais quando atuam nessas greves vão agir de forma a mostrar o poder da polícia e colocar medo na população, os soldados podem precisar de apoio.

Bom isso é uma questão. Quando os oficiais entram em greve isso pode conotar um sentido político, não mera reivindicação por melhorias. Isso pode até contribuir para ajudar na formação da ideologia militar dos soldados, já que esses ficam impedidos de enxergar a opressão que sofrem dos oficiais. Os golpes militares surgem de uma elevação de consciência dos militares que se desenvolvem nos clubes ou em períodos em que são valorizados por uma determinada ação, como uma guerra. É daí que eles entendem que devem participar da política.

Bom já deu pra perceber que devemos apoiar a luta dos soldados por melhores condições de trabalho, mesmo que isso seja usado contra nós, contra a opressão dos oficiais. Isso inclusive pode contribuir para a desmilitarização da polícia, pois a militarização é uma imposição dos oficiais para os soldados ela é uma opressão. Mesmo que os oficiais estejam nessas greves é preciso apoiá-las, para deixá-los na defensiva na hora de nos reprimir. Vai ficar difícil para o soldado bater num militante que diz “nós apoiamos vocês na greve”, claro não impede, mas dificulta. É muito melhor desarmar ideologicamente a polícia do que lhes dá força para agir conforme lhe foi ordenado. Como já disse, eles foram separados da população por uma processo histórico, os militantes que contribuem com essa separação só fazem o papel da classe dominante. É preciso vê-los como profissionais de segurança, que é o que são de fato. É assim que eles são definidos na lei, não existe nenhum ponto na constituição que diz que os militares devem reprimir a classe subalterna e defender a burguesia. Se eles fazem isso é por desvio de atividade, estão na ilegalidade. A lei está do nosso lado, a questão é o uso dos instrumentos. Um martelo serve para bater um prego, mas pode ser usado como uma arma, o mesmo se dá com o Estado, cabe aos militantes perceber que eles agem na ilegalidade, quando reprimem e que essa não é a ordem segundo as leis. Assim é preciso tirar seus argumentos de contra o povo e fazer com que eles reflitam sobre a repressão.

Por outro lado, é preciso ganhar os soldados na luta contra os oficiais pela desmilitarização. Com isso não quero dizer desarma-los, mas torna-los trabalhadores da segurança pública em harmonia com os cidadãos. Eles não estão em guerra contra o povo, logo não são como o exército que precisa se preparar contra as outras nações. Mesmo apoiando os soldados corremos o risco de ser reprimidos. Na verdade, muitos soldados tendem a defender a corporação e não se identificar com o povo. Em outras palavras vai ocorrer mais cedo ou mais tarde um conflito aberto entre o povo e a polícia na luta pelo poder, mas não precisamos antecipar isso, pois esse é o momento de ganhar força, formar os quadros para a revolução para isso é preciso fazer certos acordos, certos Ribentrov-Molotov – acordo firmado entre a URSS dirigida por Stalin e Hitler, esse acordo era necessário, era a única forma que a União Soviética tinha para preparar suas forças para a guerra contra o nazismo, o nome representa os dois ministros das relações internacionais. Sem eles a militância tende a ser dizimada pala repressão. O que pudermos fazer para impedir a repressão nesse momento deve ser feito.
encourado potekin

potekin barco Marinheiro rebelados, Encouraçado Potekinpotekin2 Cena do Filme Encouraçado Potekin de Einsentein

Por outro lado, temos algumas histórias de militares que se juntaram ao povo de forma quase inimaginável. É o exemplo de Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Ele era um dos responsáveis pelo Revolta dos 18 de Copacabana, mas por estar doente não participou dela. Depois os militares tentaram uma revolução contra Armando Sales que fazia fortes ataques aos militares. Era uma questão essencialmente corporativista, apesar de ter pontos de progresso. Devido a isso foram organizadas colunas com os tenentes, sem o apoio dos oficiais. Daí, a revolta tomou um sentido mais popular, já que tiveram que se esconder entre a população. Prestes percebeu que uma revolução militar não iria resolver os problemas da população. No exílio conheceu o marxismo e se decidiu pelo povo. Voltou ao Brasil para fazer uma revolução popular, infelizmente não conseguiu.
Temos exemplos contrários, é o caso do Cabo Ancelmo. Ele nem se quer era cabo, era um soldado que liderava os marinheiros na associação. Queriam melhores condições de vida, poder casar, boa alimentação etc. Nada que remetesse ao povo. Mas eram justas as reivindicações. Foram presos e depois libertos por Jango, o que revoltou os oficiais. Os militantes de esquerda se aproximaram deles como se eles fossem apoiar a causa comunista, mas como já disse, era uma revolta corporativista. Mariguella escrevia os discurso para que o “cabo” Ancelmo pronunciasse. O próprio Anselmo afirmou recentemente que não tinha nenhuma identidade com o que falava, mas que tinha ficado amigo do pessoal e que diante das condições que ele estava com relação às forças armadas não podia negar a ajuda da esquerda. Foi para cuba recebeu treinamento, lá conheceu a uruguaia Soledad, que atual no Uruguai junto aos pais. Se relacionou com ela e vieram para o Brasil. Aqui ele traiu os militantes e entregou os líderes do movimentos VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) dizimando a organização. Entregou Soledad, que estava grávida dele segundo contam estudiosos no assunto – apesar do Cabo Anselmo negar essa versão. Segundo Anselmo, ele foi usado como “cachorro” pelo exército e que foi obrigado a fazer tudo isso, mas afirma que tinha muito mais afinidade com os militares do que com os comunistas, na verdade, ele tinha aversão ao comunismo, faz críticas mordazes à Cuba. O fato é que ele traiu a causa por interesses próprios, não duvido que ele tenha virado um “cachorro”, mas vários militantes preferiram a morte a entregar seu companheiros. Os oficiais tinham motivos de sobra para desconfiar do cabo, mas a verdade é que os comunistas deveriam ter ainda mais. Cometeram um erro. Soledad foi morta devido a tortura, o feto de seu filho estava aos seu pés.

coluna prestes Coluna Prestesassociação dos marinheiro e cabo anselmo Cabo Anselmo junto aos marinheiros na Associaçãocabo anselmo Cabo Anselmosoledad Soledad Barret, ao lado seu corpo já morto pelos militares na tortura

Assim, nosso apoio deve ser consciente, devemos sim, defender melhores condições de trabalho e combate a opressão dos oficiais. É possível que os soldados estejam ao lado do povo. E nós podemos contribuir com isso agindo com consciência. Na Rússia os soldados prendiam os oficiais que queriam reprimir o povo. A Revolução Proletária contou com o apoio dos soldados. Esses soldados seguiam as ordem dos sovietes. Quando Yeltsin tentou dar um golpe em Gorbatchov os soldados que cercaram o congresso não tinha coragem de reprimir o povo nas ruas. Com Roosevelt os militares foram usados para defender os operários em greve que estavam sendo atacados pelo exército paramilitar de lupemproletários organizado pela burguesia. Em outras palavras não podemos ser mecânicos pensando que o exército e a polícia determinantemente atacará o proletariado, a realidade é dinâmica. Mesmo que a polícia não queira nosso apoio devemos nos mostrar solidários com suas dificuldades.

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