A LUTA NO ESTELITA E A REPRESSÃO DO ESTADO

O PODER SE CONQUISTA POR PARCELAS, A NÃO SER QUE NÃO SE QUEIRA CONQUISTAR, A MELHOR MANEIRA DE LUTAR É A MANEIRA ORGANIZADA E POLITIZADA. NÃO SE JUNTA UMA COISA COM UMA NÃO-COISA, QUEM QUER CONQUISTAR PROPÕES COISAS CONCRETAS. A VIOLENCIA DO ESTADO PARECE SER UM TREINAMENTO PARA O GOVERNO DO PSB.

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A prefeitura da cidade do Recife, sob a égide de Geraldo Júlio do PSB realizou essa semana uma ação truculenta contra os manifestantes do movimento Ocupe Estelita. O Batalhão de Choque fez uso de bomba de efeito moral, gás de pimenta e bala de borracha; muitas pessoas saíram feridas e algumas foram detidas. Segundo a polícia os manifestantes se recusaram a sair de forma pacífica, e por isso usaram da força. Uma advogada disse que pediu para entrar no local para dialogar com a manifestantes e convencê-los a sair do local, mas a polícia não permitiu, ela acreditava que conseguiria a saída de forma pacífica. O movimento se opõe a demolição da antiga RFFSA no Cais José Estelita que tinha sido iniciada há um mês pela prefeitura e um consórcio de empresas. No local seriam construídos 14 prédios com 45 andares cada um (no máximo). O projeto da prefeitura estava totalmente fora dos padrões legais, ele precisava ser aprovado pelo IPHAN, pelo DNIT, além de haver áreas da União. O movimento ocupou o local e vinha fazendo atividades acerca de problemas urbanos.

A justiça tinha determinado que eles não poderiam dar início a demolição, e, segundo os manifestantes, havia um acordo de não reintegração de posse. Porém a polícia fez a reintegração com a ordem da prefeitura, que alegou está no direito de faze-la, sem, no entanto, poder dar início às obras. A ação da polícia também foi fruto da conivência do governador João Lyra.

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É estranho ver esse tipo de movimentação num momento próximo às eleições, onde um candidato pelo PSB Eduardo Campos, ligados a todos os agentes da repressão contra o Ocupe Estelita. Não espera que isso fosse acontecer, não agora, pelo menos. A questão da causa do movimento não que trago aqui, na verdade, tenho minhas críticas a ela, mas é pela questão da repressão policial. Mas vou dar minha opinião sobre o modus operandis do movimento que pra mim acaba resultando no Nada. O movimento, pelo que me parece, tinha uma proposta que não era nada agradável à prefeitura, pois ele apenas propunha a discussão sobre o espaço com a população, ou seja, “vamos dialogar e cada diz o que acha e vamos ver no que dá”. É obvio que esse movimento acaba levando a nenhuma proposta concreta. Ora, quando um pessoal não quer fazer uma coisa o que ele diz: “ei, espera aí, agora não, sei lá, acho que não é assim, não vai dá certo, tema alguma coisa errada, deixa pra lá, vamos embora, já é tarde, eu quero fazer não”. Quem quer alguma coisa de fato propõe, e não fica negando o que o outro propõe. Quando escutamos uma tese e não gostamos dela tendemos a dizer “tem nada a ver”, mas não organizamos uma antítese. Esse é o melhor modo de cortar ideias no seu nascedouro, pois dizer que as coisas estão erradas só faz enfraquecer quem está propondo uma tese. Uma não-tese não é uma antítese, por isso, o encontro de uma tese com uma não-tese, vai resulta em Nada. Não podemos juntar uma coisa com uma não-coisa, segundo Kant uma coisa só pode ser uma não-coisa em tempos diferentes, mas não ao mesmo tempo. A princípio o projeto e o não-projeto resulta no que está hoje, ou seja, na continuidade daquele espaço abandonado. Há não ser que esse seja o intuito do movimento, é preciso pensar um projeto que possa dar parcelas de vitória para o povo. Nenhuma classe conquista o poder sozinha e totalmente, mas com alianças e em parcelas. Talvez a construção dos prédios não seja boa para o povo, mas podemos propor uma divisão de áreas que privilegie o popular, como uma praça, por exemplo, e dar um espaço para o interesse privado. Não vivemos no comunismo (ainda), não temos o poder. Uma obra emprega operários, e gera emprego, isso é importante. A luta deve ser mais em torno da questão de não se fortalecer os organismos que favorecem a consulta popular. Ora, temos o Orçamento Participativo, esse projeto deveria ser discutido por ele, mas de forma bem mais democrática do que é o OP hoje. Cada grupo levaria o seu projeto para ser debatido e votado pelo povo. Nesse sentido, os empresários, teriam que fazer uso do argumento político para conseguirem o que querem, mas haveria outras propostas, inclusive uma que conciliasse interesses. Então se a intenção é fazer uso do espaço para o popular então é preciso organizar uma proposta e levar para a prefeitura, se eles não atenderem a luta se dar de forma mais brusca. Se se quer discutir o espaço com o povo, como dizem os manifestantes, então é preciso propor uma conferência ou plebiscito, isso é ser propositivo. Mas se a intenção for apenas barrar o projeto, então, nada do eu disse faz sentido. Sabemos que a frase discutir com povo pode ser bastante abstrato, pois é preciso dizer a forma: plebiscito, conferencia, etc.

Sobre a repressão, é obvio que foi demasiado desnecessária. Na verdade, essa atitude não faz nenhum sentido, pois a prefeitura não poderá colocar em andamento o projeto mesmo sem os manifestantes no local. O PSB só fez perder com essa atitude, a própria Marina, que é vice presidenciável de Eduardo Campos, se posicionou contra a atitude. Talvez o pensamento de Geraldo Júlio foi o de reprimir agora para não reprimir em momentos mais próximo da eleição, mas, se foi isso, o tiro saiu pela culatra, pois os manifestantes voltaram e o movimento cresceu. Não consigo imaginar um pensamento sensato da prefeitura sobre essa questão. O que vejo é que a polícia tem dado uma ofensiva contra as repressões. Em vários movimentos que ocorreram antes de 2012, quase não se via repressão como essa em Pernambuco, mas aos poucos a polícia tem aumentado a dose da repressão. Isso pode ser um reflexo do sentimento dos militares para com as manifestações. E esses movimentos têm sido usados como cobaias.

Uma coisa que senti falta no movimento foi a participação de partidos políticos e organizações socais, havia o Direitos Urbanos e outros, mas alguns movimentos bem conhecidos não se mostraram muito presente. Talvez por motivo de falta de identidade pela causa, ou por motivo de não aceitamento de partidos no movimento, não sei ao certo, mas o fato é que os partidos estão pouco envolvidos. Isso pra mim é uma das questões mais importantes, pois tem havido uma repressão em manifestações contra os partidos, mas os partidos são organizações com pautas sociais, e deveriam ter direitos de participar e levantar as bandeiras. Ora, os partidos representam classes sociais, é a ligação entre a sociedade civil e a sociedade política. Se a proposta é não ter partidos, então deve haver algo de anti-estado nos movimentos, ou pode ser de caráter conservador. Os partidos conseguem organizar movimentos que acabam desembocando em boas propostas. O que vejo é que os partidos estão na defensiva, eles mesmo sendo guiados por movimentos anti-partidos. Existem partidos que tiram proveito disso, mas outros que querem trabalhar a consciência do povo acabam sendo deformados nas suas concepções ideológicas e não percebem isso. Para mim os partidos devem ir para esses movimentos e disputar a consciência dos manifestantes. Enquanto Bakunin dizia que a Comuna de Paris estava totalmente correta pois tendia ao anarquismo, Marx dizia que não iria dá certo, pois era preciso um partido operário. Como para Bakunin o mais importante era a agitação popular, para ele a comuna deu certo, mas Marx queria a libertação real da classe operária e não metafísica, por isso elaborou uma ciência da revolução.

O que se deve fazer agora é organizar a luta de forma proletária, ou seja, organizada. Deve haver uma comissão que se reúna com o poder público para propor uma conferência sobre o projeto. Muitos vão dizer que isso é jacobinismo ou stalinismo, mas é assim que se conquista. Existem muitas pessoas da classe média alta que apoiam o movimento, cantores como Otto e professores universitários, por isso tende a ter repercussão e força (como já tem), essa força deve ser aproveitada para conquistar para o povo, e povo quer casa, praça, e emprego, podemos conciliar isso muito bem. Será que não é isso que o povo quer? Penso que sim, sei que vão me chamar de jacobinista, mas não vejo outra alternativa para quem quer a vitória.

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Um comentário sobre “A LUTA NO ESTELITA E A REPRESSÃO DO ESTADO

  1. Concordo plenamente, ao não propor nenhuma alternativa concreta as torres o movimento perdeu o sentido alem de não conseguir mais apoio popular.
    Belas palavras!

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