UMA JOGADA DE MESTRE DO ACASO

images-cms-image-000387387No dia 16 de agosto o Brasil, mas principalmente o povo pernambucano, foi surpreendido pela notícia da morte trágica de Eduardo Campos. Eduardo foi governador por dois mandatos em Pernambuco, na última eleição foi eleito com quase 90% dos votos. Seu sucesso se dava pelo motivo do partido ter uma base apoiada em Miguel Arraes, avô de Eduardo, e das políticas do presidente Lula voltadas para o estado de Pernambuco. Além disso, Eduardo fez uma política de melhoramento na saúde e educação, abrindo UPA’s e escolas integrais. Por trás dessa política havia um forte arrocho salarial dos professores do estado, e privatização da saúde, concurso público quase não existia, e os professores das escolas públicas eram escolhidos a dedo pelas pessoas de confiança do governo. Mesmo com tudo isso Eduardo crescia sua popularidade no seio da população, as suas políticas eram voltadas para dar algumas melhorias ao povo mais pobre de forma que conseguisse ganhar seu apoio. Sua popularidade cresceu tanto que ele conseguiu eleger o prefeito Geraldo Júlio, que não tinha nenhuma condição de ganhar sem o apoio de Eduardo. Passou em tão para ofensiva, decidiu se candidatar a presidente da república, começou suas articulações, fazendo alianças com os partidos de direita e de esquerda. Toda essa articulação causava espanto no seio da esquerda, parecia que Eduardo estava pendendo para a direita. Foi acusado de oportunista, pois apesar de crescer sobre as asas do PT agora estava lhe dando as costas. Essa posição do PSB abriu espaço para outros partidos da base aliada passassem a pressionar o PT por mais espaços no poder, logo diversos partidos saíram da base aliada da Frente popular e dividiram suas forças entre o PSB e o PSDB.

                Dizer que Eduardo tinha uma política meramente oportunista é um tanto equivocado, nenhum partido cresce apenas por interesses econômicos, eles precisam de ideias. Penso que o PSB já não se via numa aliança com o PT, que as contradições entre esses partidos estavam começando a aparecer. O PSB leva em sua sigla a palavra Socialista, em numa sigla partidária, socialista não significa ser defensor da ditadura do proletariado, mas defender um desenvolvimento onde haja uma melhor distribuição de renda e de oportunidades. As contradições entre o PSB e o PT perecem não importar, mas é miopia política tentar mostrar que são a mesma coisa.

                Na sua entrevista como candidato à presidência Eduardo colocou que seu projeto era que todos tivessem as mesmas chances, que os filhos dos pobres e dos ricos estudassem nas mesmas escolas, ou seja, não haveria mais escolas privadas; disse também que iria oferecer o passe livre para os estudantes de ensino básico. Pode soar demagogia, mas fazer uma promessa nesse teor incomoda muita gente, e pode agradar outras, normalmente os políticos fazem promessas genéricas, afirmando que gerar emprego, melhorar a educação e segurança, mas não pontuam o que de fato irão fazer, Eduardo ao contrário foi bastante incisivo nessa questão.

                Escola pública para todos não socialismo, existem países capitalistas com escolas e saúde exclusivamente públicas. Esses elementos não vão modificar a natureza do capitalismo, apenas colocam freio no liberalismo. Mas não foi por dizer isso que Eduardo morreu, não é isso que estou dizendo, até porque a sua morte foi poucas horas depois da entrevista, nem se quer haveria tempo para planejar um atentado.

                O fato é na disputa da presidência Eduardo se apresentava como uma alternativa, onde havia dois grandes partidos disputando, o PT e PSDB, esses dois partidos tem polarizado a política nos últimos anos. Nas pesquisas Eduardo não passava de 8% das intenções de voto, Aécio tinha 21% e Dilma 39% (aproximadamente). Sem dúvida Eduardo não iria crescer muito suas intenções de voto, dificilmente chegaria a ser eleito ou no mínimo a segundo lugar.

                Diante dessa situação o destino que normalmente não é conservador se intromete na política, e tira a vida de forma trágica de Eduardo. Ora, Eduardo vivo é uma coisa, mas como mártir, digo, como morto tem muito mais valor. A sua morte, de certa forma mexeu com os sentimentos dos pernambucanos, o seu enterro tornou-se um fato histórica. Algumas pessoas que depositavam suas esperanças em Eduardo chegaram à pôr a culpa da morte em Dilma, houve vais no velório e pedidos de justiça. Se a intenção do destino era tirar Dilma da presidência ele fez uma jogada de mestre, pois se Marina for candidata tende a acontecer o mesmo que houve na última eleição, onde ela obteve um número expressivo de votos, além disso, ela vai tendo como base a memória de Eduardo Campos, no primeiro turno ela não ganha, mas vai disputar com Dilma no segundo turno, e o que pode ocorrer é que o PSDB deve apoiar a candidatura de Marina no segundo turno, se isso ocorre ela pode levar a presidência.

                Estamos vivendo um momento de ascensão do conservadorismo, houve manifestações contra o governo de Dilma, todas pediam fim da corrupção e melhoria na saúde e educação, mas nada disso faz sentido num país onde todos esses setores vêm tendo melhorias. De fato, existem forças que não querem permitir que o PT avance em sua política, e essas forças tem jogado com todas as armas para impedir isso, mesmo as esquerdas mais radicais tem feito críticas ao PT e abrido espaço para os conservadores. Não podemos afirmar que Dilma iria implantar um socialismo no Brasil, mas as suas políticas desagradavam as classes dominantes do Brasil, para esses setores qualquer um podia ser melhor que Dilma. Assim o destino atendeu aos pedidos da elite brasileira e desagradou outras elites, conseguiu fazer tudo de forma bastante profissional fazendo parecer que a morte de Eduardo em nada iria mudar nas eleições presidências. Bom, vamos ver como isso vai parar.

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